“As cidades pedem socorro e repensar o Brasil é preciso” – Carta Capital

Um pedaço do inferno, aqui é onde eu estou (Mano Brown, Homem na Estrada)

Concentração-de-EmpregoCORTADAO Brasil passa por uma crise política, econômica, social e ambiental. Mas talvez seja nas cidades que essa crise alcance o maior nível de dramaticidade dado o número de brasileiros que são profundamente afetados por ela. Dos 207 milhões de habitantes, mais de 84%, ou 175 milhões, mora nas cidades. Quase 1/3 desse total mora nas grandes metrópoles. O desemprego que chegou a 12,3% da população economicamente ativa brasileira (24 milhões de pessoas) é maior em 13 capitais. A taxa nacional de homicídios alcançou 27,1 (pessoas mortas para cada 100 mil habitantes) mas nas capitais é ainda maior (36,4) e nos bairros pobres maior ainda.

Acesse o restante aqui: https://www.cartacapital.com.br/blogs/br-cidades/as-cidades-pedem-socorro-e-repensar-o-brasil-e-preciso/

Book: Urban Latin America: Part 2: Planning Latin American Cities: Dependencies and “Best Practices”

Issue #213 Mar 2017 Volume 44-2

Angotti and Irazábal – Intruducion

Maricato – The future of global peripheral cities

Valenzuela – Private Poduction of Social Housing in Mexico

Franz – Urban Governance and Development in Medellín 

Sotomayor – Urban Policy in Medellín

Hunt – Bogotá’s Transmilenio

Montero – Worlding Ciclovía

Friendly – Urban Policy and Social Movements in Brazil

Albert – Power and Citizen Participation in Santo André

Koch and Sánchez – Participation without Power in Barraquilla

Sosa – Mobility and Politics in Mexico City

 

Inglês

Book: Urban Latin America: Part 2: Planning Latin American Cities: Dependencies and “Best Practices”

Issue #213 Mar 2017 Volume 44-2

Angotti and Irazábal – Intruducion

Maricato – The future of global peripheral cities

Valenzuela – Private Poduction of Social Housing in Mexico

Franz – Urban Governance and Development in Medellín 

Sotomayor – Urban Policy in Medellín

Hunt – Bogotá’s Transmilenio

Montero – Worlding Ciclovía

Friendly – Urban Policy and Social Movements in Brazil

Albert – Power and Citizen Participation in Santo André

Koch and Sánchez – Participation without Power in Barraquilla

Sosa – Mobility and Politics in Mexico City

 


 

 

Book: Urban Latin America: Inequalities and Neoliberal Reforms (Latin American Perspectives in the Classroom)

Tom Angotti (editor)
Rowman & Littlefield17/08/2017

LABHAB 20 anos

O LABHAB – Laboratório de Habitação e Assentamentos da FAUUSP completa 20 anos! Para comemorar foram lançados os Cadernos do LABHAB com 2 livros editados pela Annablume – dos Professores Tom Angotti (do Pratt Institute de Nova Iorque) e do José Baravelli (FAUUSP) e foi realizada uma mesa redonda no IAB-SP com ambos autores.
Não quero deixar de reconhecer a importância do trabalho do grupo de professores reunidos atualmente no LABHAB. Trata-se de um time de craques. Mas além de muito competentes e produtivos eles mantém uma postura política que dignifica a USP e o meio universitário de um modo geral. Combinam ensino/pesquisa e extensão de uma forma rara na academia sempre visando ampliar o papel social da universidade pública. São muito estimados pelos alunos devido ao respeito e dedicação que que lhes devotam e a postura ética que assumem. Fazem um trabalho que é relativamente pouco divulgado pelo grupo. Não são competitivos e nem colocam seus egos acima (o que é muito comum na universidade) do interesse coletivo.
Ontem participei de uma reunião do Labhab com os grupos de estudantes da FAUUSP que fazem extensão e pude constatar a importância que essa prática está assumindo contribuindo para aproximar a universidade da realidade espacial e social.
Minhas homenagens ao nosso time de acadêmicos militantes : João Whitaker, Karina Leitão (que organizaram os eventos), Maria Lucia Refinetti Martins, Camila Otavianno, Caio Santo Amore, Luciana Royer, Eduardo Nobre, Beatriz Ruffino, Jorge Bassani. Se esqueci alguém voltarei a escrever.
Segue o vídeo da mesa redonda no IAB gravado por Carina Serra.

Melancolia na desigualdade urbana

A vida urbana, principalmente nas grandes metrópoles, tem revelado um alto grau de desencanto e solidão. Ao invés das cidades serem espaços de convivência e socialização, as más condições de moradia, a dificuldade de mobilidade e a ausência de espaços de lazer parecem estar levando seus cidadãos a um estado de melancolia coletiva.

Café Filosófico CPFL _16/04

 

Overcoming Deep Inequality in Brazilian Cities: An Interview with Erminia Maricato

By Brian Mier, Research Associate at the Council on Hemispheric Affairs’ Brazil Unit

Erminia Maricato is one of Brazil’s most renowned urban planners. In addition to having published 11 books and contributed nearly 40 book chapters, her lectures, often in public forums and protests, regularly draw large crowds of young people. But she is not merely an academic. Maricato was a key player in four of the most important moments in the last 30 years of Brazilian urban reform.

Maricato was an actor in the movement that created and ratified, through popular petition, articles 182 and 183 of the 1988 Brazilian constitution These articles declare that the social function of property overrides the profit motive and set guidelines for radical urban reform. From 1989-1992, she served as São Paulo’s Secretary of Housing and Urban Development within one of the most progressive big-city governments of all time, working alongside Education Secretary Paulo Freire. In this position, Maricato helped create innovative policies that provided technical support for urban social movements to appropriate abandoned buildings and vacant land and convert the properties to self-managed social housing in accordance with the constitution—policies that were later replicated in hundreds of cities across Brazil. She was active in helping create and ratify the landmark Statute of the City in 2001, which creates guidelines for adherence to constitutional articles 182 and 183 and mandates that every city with a population over 20,000 has to facilitate a regular participatory development plan with full budget transparency. From 2003 to 2005, while serving under former Porto Alegre Mayor Olivio Dutra in the Federal Ministry of  Cities, Maricato acted as the technical coordinator of President Luis Inacio “Lula” da Silva’s national urban development policy.

In March of this year,  a progressive coalition of labor unions, social movements, student groups, and academic and professional associations called the Frente Brasil Popular  brought over one million people onto the streets in scores of cities across Brazil, protesting illegitimate president Michel Temer’s neoliberal pension and labor reforms. These protests were billed by their coordinators as warmups for a national strike that will begin on April 28.  At 70 years old, Maricato is coordinating participatory processes to develop the Frente Brasil Popular‘s urban strategy, something she says is for the mid to long term, as “we have some tough times ahead of us.”

I interviewed Maricato in her home in São Paulo’s Pinheiros neighborhood on April 7, 2017.

http://www.coha.org/overcoming-deep-inequality-in-brazilian-cities-an-interview-with-erminia-maricato/

 

Reflexões após a palestra em Presidente Prudente (out/2016)

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Quando uma estudante de arquitetura (invariavelmente são mulheres) se aproxima de mim para pedir uma foto ou um autógrafo com os olhos marejados, em geral, eu não me sinto bem. Aconteceu várias vezes quando estive em Presidente Prudente para a Semana de Arquitetura e Urbanismo (26/10). Fico pensando que devo ter feito algo de errado para despertar tal sentimento pois me interessa despertar a razão. Sim, mostrar a irracionalidade geral presente no uso e na ocupação do solo urbano orientado por interesses de mercado – com o meio ambiente, com o conforto da maioria da sociedade, com a saúde pública – e a necessidade de transformar essa realidade. Mas pode-se querer enfatizar a razão com tal intensidade e paixão que desperta-se, não ela, mas a emoção. Pus-me a refletir sobre isso e cheguei a algumas novas conclusões que me aliviaram a culpa.
Antes de fazer minha palestra para mais de 200 jovens que me ouviram atentamente, em absoluto silêncio, por mais de uma hora eu fui guiada para um tour pela cidade, pelo Professor da Unesp, Everaldo Melazzo que faz pesquisas em várias cidades do interior paulista. Tenho acompanhado há quase 5 décadas a evolução urbana no Brasil mas não consigo deixar de me chocar quando fico frente à realidade de cidades que negam a vida urbana e os espaços públicos de convivência coletiva comandadas que são por interesses fundiários e imobiliários. E, infelizmente, elas talvez sejam a maioria das nossas cidades de porte médio, que crescem mais do que as metrópoles em PIB e população, como já analisou Lena Lavinas. A população pobre – 0 a 3 salários mínimos de renda familiar – foi, em grande parte (aproximadamente 15.000 pessoas), localizada fora da cidade, em um daqueles conjunto-depósito-de-gente, com casinhas idênticas perfiladas, que criticávamos tanto no período do BNH e que o PMCMV voltou a promover com o protagonismo das prefeituras municipais. Um gueto, uma espécie de senzala urbana com moradores isolados e exilados da cidade. O maior problema ali é o transporte coletivo pois centros de abastecimento, serviços gerais como equipamentos de saúde, equipamentos esportivos e de lazer, bancos, chaveiros, padarias, etc, etc, etc, estão a quilômetros de distância. Sempre que encontro esse tipo de conjunto habitacional penso na jovem mãe que carrega o filho no colo até o ponto do ônibus, que fica próximo de poucas casas apenas, sendo que a disponibilidade de transporte à noite e no fim de semana é errática para dizer o mínimo. Os moradores não têm nem sobre o que reclamar, afinal, conquistaram a casa própria com água, esgoto e asfalto. E, pela primeira vez, com um subsídio gigantesco que era dado pelo governo federal (antes do impeachment porque pelas informações disponíveis os programas para as rendas mais baixas foram suspensos). A segregação não poderia ser mais perfeita. Os pobres foram retirados de vários pontos da cidade e reunidos ali com mobilidade precária.
Nas cidades que são orientadas pela relação entre a especulação fundiária e o automóvel, tomado como centro da matriz de mobilidade, a elite (e parte da classe média) também é conduzida ao gueto. Se os pobres foram exilados ao norte a elite se exilou no sul. Os loteamentos fechados também negam a vida urbana coletiva. O número de loteamentos fechados em Presidente Prudente é impressionante. Tive a sensação de ver ruas ladeadas por muros ao longo de quilômetros, sem pedestres, sem vida humana. Neste reino do automóvel, constatei, com perguntas aos estudantes e professores, que há casos de patroas e patrões enviarem vans para transportar os empregados domésticos já que as distâncias e número de usuários não comporta um transporte coletivo frequente. Há loteamentos tão grandes que não adianta o transporte coletivo deixar o empregado no portal do mesmo pois resta a distância interna a ser percorrida.
Perguntei: – Mas essa disfuncionalidade não diminui o preço do lote?
– Não.
– Paga-se pela distinção?
– Paga-se talvez pela segurança.
Certamente esse moradores não conhecem estudos – incluindo mestrados- que revelam as patologias que acometem jovens criados nesses espaços guetificados. E pensar que já tentamos, na FAU USP, em parceria com o Ministério Público do Estado de São Paulo e a PUCCAMP, paralisar a abertura de loteamentos fechados já que constituem flagrante ilegalidade frente a lei federal 6766/1979. (Não confundir Loteamento ou parcelamento do solo com Condomínios regidos pela Lei federal n. 4.591 de 1964). Atualmente esse produto- lote urbanizado em loteamento fechado se reproduz no país todo, auxiliado pelas Câmaras Municipais que ampliam os limites urbanos por meio de legislação, condenando as cidades ao espraiamento. É o produto mais rentável de um mercado que ignora a função social da cidade.
Tenho a impressão que devemos defender essa elite e essa classe média, dela mesma. Afinal até para comprar o pão, levar os filhos às escolas, acessar o tintureiro, ela precisa do automóvel. Como no subúrbio americano condenado pela maior parte dos urbanistas do mundo.
De fato, se há um consenso entre urbanistas é o da “cidade compacta”. Aquela na qual a densidade adequada de ocupação do solo barateia o custo das redes de serviços e de infra-estrutura. Mas além da insustentabilidade econômica, a cidade dispersa contraria a sustentabilidade ambiental devido ao desperdício de recursos naturais que a expansão horizontal acarreta com a manutenção de terrenos vazios e ociosos. Mas vamos dar voz aos médicos, talvez mais prestigiados do que urbanistas, que alertam para a necessidade de que ao menos uma parte de nossas viagens diárias sejam feitas a pé ou por bicicletas. Cidades saudáveis, portanto, são aquelas onde, parte do destino das viagens diárias possam ser feitas por meio de transporte não motorizado. Grandes pensadores sobre o urbanismo já mencionaram a importância do direito à “festa urbana” (Henri Lefebvre) ou a importância do mix de uso nas ruas da cidade até para torná-la mais segura (Jane Jacobs). Nada disso tem a ver com a lógica dessa cidade dispersa (que, por vezes, combina à dispersão a uma verticalização exagerada e precoce). A lógica está no poder da velha oligarquia brasileira que conjuga poder político e econômico com a propriedade da terra. Apesar do prestígio dos estudos sobre “financeirização” na produção do espaço o que vemos é o velho patrimonialismo definido por Raimundo Faoro.
Depois de ver e processar rapidamente tudo isso, depois de constatar a força da negação da vida urbana como ganhei forças para dar esperanças àqueles jovens que me esperavam com tanta expectativa? A força veio deles, da disponibilidade para mudar o mundo, da generosidade, da ética dos que não se conformam com o destino de trabalhar apenas com a arquitetura da mansão ignorando a construção social maior que são as cidades. A força veio de seus professores e arquitetos presentes que guardam na memória a utopia do direito à arquitetura para todos vivido nas experiências de Assistência Técnica, ou nos projetos de urbanização de favelas, ou na conquista, ainda ignorada, da função social da propriedade prevista na Constituição federal e no Estatuto da Cidade. Temos o que ensinar a esses jovens mas também temos o que aprender pois, creio que, nunca uma geração, no Brasil, rompeu tanto com os preconceitos – de classe, raciais, homofóbicos, lgbtfóbicos- e se mostrou tão desprendida de valores egoístas. Eu também saí de Presidente Prudente emocionada com todo aquele carinho que preciso aprender a aceitar. Meu colega da USP, Caio Santo Amore, que participou das Oficinas de ATHIS – Assistência Técnica à Moradia Social, também. Fomos todos razão e paixão.